Cabelo mais comprido

Andei aqui a pensar uns dias e acho que vou deixar crescer o cabelo. No tempo do meu liceu em Leiria tinha cabelos compridos que deixavam toda a gente tontinha.

Havia pescadores, que vinham inclusivamente da Foz do Arelho, para me pedir cabelos para fazer linha de pesca especial.

Ganhei muitos bons cobres à custa dessa brincadeira, e claro, que eu exigia uma quota parte do que eles pescavam. Comi muita sardinha gorda.

 

Eu sei que a sardinha não se pesca à linha, por isso mesmo, vejam bem a qualidade do meu cabelo. O chato é que me criou um hábito estranho desde aí.

Muitas vezes o meu fio de cabelo ainda vinha dentro da boca do peixe. Eu punha para o lado mas não me importava, porque sabia que era um sinal de qualidade e frescura.

Ter pelos no prato dava também mais liberdade à minha mulher para cozinhar. Por isso, hoje não me faz impressão quando encontro cabelo nos bifes. Às vezes até me trazem boas memórias e fico saudosista por dentro.

 

Quando tinha os cabelos compridos lembro-me muitas vezes de ficar preso nos ramos das árvores. Era muito estranho parar de repente na rua a ser puxado pela cabeça. Pensava sempre que era alguém a chamar-me para a porrada. Nos anos 70 era assim. Não é como hoje que vêm por trás e dão um toque no ombro antes do primeiro murro.

 

Uma ocasião uma mulher disse-me que com os meus cabelos compridos eu devia era trabalhar nas auto estradas, naqueles postes onde medem a intensidade e origem do vento. Era uma mulher chamada Ana, de Famalicão que nunca mais vi, mas lembro-me que me ficou com uma camisa da Triple Marfel às risquinhas. As mulheres do norte têm um encanto e viço especial. Acho mesmo que vou deixar crescer o cabelo.

 

(O nome técnico é biruta, mas o meu filho Hélio continua a dizer

que é um papagaio de praia que ele perdeu em 2002.)

tags:
publicado por fax às 18:01 link do post | comentar | favorito